domingo, 9 de julho de 2017

"Invadindo" a Praia

     No ano de 1985 a Banda de Rock Ultraje à Rigor lançava seu LP de estréia. A Seguir veremos um trecho da música "Nós Vamos Invadir Sua Praia" que da nome ao disco:

"Daqui do morro dá pra ver tão legal
O que acontece aí no seu litoral
Nós gostamos de tudo, nós queremos é mais
Do alto da cidade até a beira do cais
Mais do que um bom bronzeado
Nós queremos estar do seu lado"

     Apesar do produtor da banda ter dito na época do lançamento que a música fazia referência à invasão da banda paulista em terreno carioca, é possível fazer outra leitura da mesma. Veja bem, no Rio de Janeiro, favelas como a da Rocinha e Vidigal possuem visão privilegiada das praias, de lá é possível vê-las com uma facilidade que pode não existir para os moradores da baixada.

     Entretanto, a facilidade de ver a praia não é sinônimo de uma chegada fácil na mesma. E essa dificuldade vai além da deficiência do transporte público ou dos altos preços da condução. Para alguém que more no Leblom ou em Ipanema, caminhar pela orla da praia nas primeiras horas da manhã durante o verão é uma atividade quase banal, tão natural quanto a compra do pão para o café da manhã. Mas, as regras mudam se você for de fora, pois para estes existem "pré-requisitos" como estar de camisa e portar documento de identidade.

     Dicotomia que foi evidenciada nos recentes casos de jovens moradores de periferias (majoritariamente negros) que foram detidos e encaminhados à delegacias da região enquanto estavam a caminho da praia, sendo tratados como criminosos em potencial que ofereciam risco para a comunidade.

     Apesar de não chegar ao ponto de envolver a polícia, essa diferenciação entre moradores e não-moradores ocorre também nas praias de Niterói, temos como caso mais explicito a situação de Itaquatiara, praia que é considerada área nobre da cidade e é amplamente frequentada por moradores de São Gonçalo. Já foram divulgados nas redes sociais casos de ataques de tubarão e até avistamento de onças pintadas com o objetivo de afastar os "forasteiros" que segundo relatos dos moradores "fazem sugeria, ouvem funk bem alto, falam palavras de baixo calão, mijam nas portas das casas, estacionam em vagas para deficientes e se comportam como selvagens".

     Essa óbvia generalização é potencializada por esteriótipos advindos de bairrismos (disputas entre bairros), mas não podemos descartar dessa relação a discriminação por cor e classe social. Afinal, um gonçalense não tem uma tatuagem na testa que o identifique, e qualquer um dos atos citados acima poderia ter sido praticado por um morador de qualquer outro lugar, inclusive por um turista estrangeiro. Ligá-los a quem não mora na região é tão somente um mecanismo de defesa que visa desmerecer o diferente, afastá-lo da área que a pouco era uma zona de conforto.

     O problema é que essa área de conforto em especial - a praia - se encaixa na categoria dos "bens de uso comum do povo". Se encaixam nessa categoria todos os bens inapropriáveis e inalienáveis, existentes no território do país, cuja utilização não pode ser restringida de forma alguma, sendo passível de uso por qualquer pessoa do povo. 

     Impedir cidadãos desse país tropical de frequentarem as praias é tão ilegal que chega a ser imoral.  Todos temos direito a desfrutar do espaço que é denominado público, seja em uma tarde na praia, um rolezinho na Praça da Bandeira ou uma manifestação nas Laranjeiras, desde que saibamos preservar esse espaço que também é nosso, pois mais do que um bom bronzeado, nós queremos estar em posição de igualdade social, mas essa é apenas a Minha Humilde Opinião.

Ass; Bruno Santos


Fontes:

Ultraje a Rigor, Nós Vamos Invadir Sua Praia, WEA, 1985.

https://territoriogoncalense.blogspot.com.br/2016/11/a-intolerancia-asquerosa-na-praia-de.html?m=1

https://jus.com.br/artigos/11417/o-regime-juridico-das-praias-marinhas

https://www.google.com.br/amp/s/extra.globo.com/noticias/rio/pm-aborda-onibus-recolhe-adolescentes-caminho-das-praias-da-zona-sul-do-rio-17279753.html%3Fversao%3Damp

terça-feira, 27 de junho de 2017

Perigo!

     Ontem a noite, voltando da faculdade, desci do ônibus em meio a uma chuva fina, mas persistente. Como faço parte da parcela da população que repudia o uso do guarda-chuva, vesti meu casaco, coloquei o capuz e avancei rumo ao meu destino.

     No caminho, fui desviando das poças d'água e das pessoas que insistem em andar devagar quando está chovendo, caçando marquises ou qualquer tapagem que me ajudasse a chegar em casa menos molhado. Em uma dessas passagens, vi uma cena curiosa. Uma mulher, bem vestida, ao perceber minha aproximação guardou o celular e segurou a bolsa com força.

     Foi a primeira vez que presenciei essa reação? Não! Será a última? Provavelmente não. Então, por quê escrever sobre esse caso em especial? Bem, eu sou um trabalhador, universitário, cristão. São "credenciais" com as quais as pessoas buscam se colocar em situação de superioridade. Não que eu concorde que algum desses títulos me façam melhor que alguém, mas existe toda uma cultura que julga dessa forma e é nela que vivemos.

     O ponto crucial aqui é o seguinte: minha carga horária de 8 horas cumprida, minha carga de leitura ou minha cristandade não saltaram aos olhos daquela senhora bem vestida debaixo da marquise. O que saltou aos olhos dela foi a imagem de um jovem negro de capuz se aproximando.

     Nenhum outro tipo de qualificação que eu venha a alcançar nessa etapa da minha vida irá sobressair sobre o fato de eu ser negro. E ser negro coloca em você um grande letreiro luminoso que diz "FIQUE ALERTA". Seja andando na rua, dentro de uma loja ou entrando em um ônibus. Sou olhado como um elemento perigoso em potencial.

     É controverso pensar que as pessoas que temem a minha aproximação hoje são descendentes daqueles que compravam e vendiam meus antepassados. Quando será que isso mudou? Quando foi que o negro submisso se tornou o " mal feitor"? Bem, ainda não sei, mas sei que essa imagem foi bem divulgada, poi até mesmo EU me tremo ao perceber a aproximação da minha gente.

     Para finalizar, um recado, as pessoas são mais do que aparentam, o engravatado branco pode ser um deputado corrupto que desvia dinheiro da merenda de criancinhas, o jovem negro encapuzado pode ser um trabalhador, universitário, cristão que só quer chegar em casa, jantar, tomar um banho e dormir para recomeçar a rotina no dia seguinte. Não devemos julgar o livro pela capa! E essa é a Minha Humilde Opinião.

Ass; Bruno Santos

segunda-feira, 26 de junho de 2017

O homem e o pote.


  Em uma cidade do interior, havia um certo homem muito humilde e piedoso, que precisava ir muito longe para pegar água em um poço. Aquele era o único na região e atendia a muitas famílias.

  Um dia, não se sabe o motivo, esse poço secou e as famílias da região começaram a passar por dificuldades. Um anjo do Senhor que passava pela região viu a aflição do povo e resolveu ajudar.

  Em plena madrugada, o anjo apareceu ao homem piedoso enquanto este, preocupado com o futuro de sua família, encarava um pote vazio encima da mesa, e disse:

- O Senhor viu o sofrimento de seu povo e se compadeceu, agora, eu abençoo este pote que você tanto olhava. Ele não se esvaziará até que o poço volte a encher, desde que você o use com sabedoria, bondade e não revele a ninguém sua natureza.

  Depois disso o anjo sumiu, deixando o homem de boca aberta e na sua frente o pote cheio de água limpa. O homem, ainda desnorteado, provou a água e ao ver que era mesmo potável virou para tomar um gole, mas a água do pote não baixou e ele quase se engasgou.

  Ao ver que o anjo havia falado a verdade, ele soube o que precisava fazer: encheu todas as vazilhas e baldes da casa e no meio da madrugada foi até a casa de cada um de seus vizinhos enchendo seus baldes e os bebedouros dos animais, sem que o nível de água no pote diminuísse sequer um dedo.

  O poço ficou seco durante nove meses e durante todo esse tempo o homem saía de madrugada para prover água a sua família e a todas as outras da região. Ele ficava muito cansado, pois depois de toda essa caminhada precisava voltar para sua casa e trabalhar nas plantações, mas ele sabia que se não fizesse desta forma o pote poderia se tornar tão seco quanto o poço.

  Em uma certa madrugada, o homem acordou como de costume para pegar a água do pote, mas este estava vazio. Ele entrou em pânico, começou a pensar de quem poderia ter esquecido, que atitude poderia ter tido para que o anjo tirasse sua bênção, mas não conseguiu encontrar a resposta então, com o pote em mãos, foi até o poço. Lá estava a resposta.

  O poço estava cheio novamente. O homem, eufórico, saiu pela estrada gritando de alegria: "A água do poço voltou, a água voltou! Venham todos ver, a água do poço voltou!", mas ninguém apareceu para compartilhar de sua alegria.

  Voltando para casa, o homem pensou em pegar potes e levar até o poço, mas como ainda haviam muitos cheios ele foi dormir. Quando acordou, sentiu cheiro de feijão e decidiu que naquele dia não levaria sua marmita para o campo, mas ficaria em casa e almoçaria com a sua família.

  Entretanto, ao chegar na cozinha, viu uma cena que o deixou horrorizado: o pote milagroso, presente do anjo, estava sendo usado para abrigar a salada. Ele entrou na cozinha e disse: - Esse pote não é para isso! Esse não!

  Então, pegou o pote, passou os legumes para outro lugar e declarou que aquele pote não deveria ser usado para nada naquela casa,  pois ele era especial. Um presente. A sua mulher, estranhando, respondeu: - Meu bem, esse pote quem comprou fui eu, ele não foi presente e mesmo que fosse, é só um pote. É pra isso que ele serve. Isso não é pecado.
  
  Porém, o homem foi irredutível, bateu o pé e a partir daquele dia o pote se tornou um objeto decorativo em sua casa. 
  
  Diante dessa história, o que você achou do comportamento do homem? Apenas ele conhecia o verdadeiro valor daquela vazilha, apenas ele sabia os sacrifícios que fez para mantê-la em segredo. Se fosse você, permitiria que ela fosse usada para por salada ou qualquer outra coisa? Ou você a guardaria como uma relíquia sagrada?

  Bem, usar uma vazilha para por salada não é pecado, tanto quanto uma relação sexual entre marido e mulher não é pecado, mas se você fosse José, se você tivesse visto o Anjo Gabriel dizer que sua esposa seria a mãe do Salvador, será que você não teria com Maria o mesmo cuidado que o homem teve com aquele pote? Mantê-la intocada e segura tendo em vista toda a graça que o mundo recebeu através dela? Não seria pecado que marido e mulher coabitassem, não seria pecado que Maria tivesse quinze filhos depois de Jesus. Não seria, mas será que diante de tudo que eles viram Deus realizar, diante de todas as profecias que ouviram, eles poderiam deixar as vontades da carne prevalecerem diante do Espírito? Ou eles viveriam já na Terra o Céu, onde não haverão marido e mulher, mas seremos todos irmãos? 

  Bem, esse texto enorme foi apenas para te fazer pensar sobre isso. Espero que você não tenha se decepcionado, obrigado por vir até aqui e partilhar da Minha Humilde Opinião.

Ass: Bruno Santos

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Identidade Digital

     Estamos no mundo real, temos relações reais e realizamos atividades reais, mas também estamos no mundo virtual, onde podemos ser um reflexo do que somos no mundo real, ou podemos ser o oposto, ou podemos ser ambos e ainda muito mais.

     Existem pessoas que transmitem uma certa imagem através de suas redes sociais, mas que não atendem as expectativas ao vivo, seja por causa das fotos cheias de filtros, pelas frases de efeito copiadas do Google, ou pelo "estilo de vida" que dizem seguir. Assim como as que surpreendem positivamente mostrando ser muito mais do que aparentam.

     A internet te permite escolher quem quer ser, o que causa estranhamento quando percebemos que algumas pessoas têm escolha, mas continuam sendo toscas. Machistas, racistas, nazistas e preconceituosos em geral podem destilar sua escrotidão sem temer represálias, protegidos no conforto de suas casas, no fundo de um ônibus ou sentados na privada de algum shopping.

     Essa pessoa pode ser você, seu primo ou aquele cara legal que só posta Memes com gatinhos fofos, mas que tem outros cinco perfis, um no qual é rico, um no qual é gay, um no qual é uma garota e aquele que precisa ser deletado cada vez que sofre uma denúncia, seja pelo que for.

     As pessoas vivem vidas duplas, mesmo não chegando ao exagerado exemplo acima, ter um perfil para a família e outro para os amigos já mostra que você não é sincero. E mesmo tendo um só perfil, existem páginas que você deixa de curtir e postagens que deixa de compartilhar com medo do que os outros pensarão.

     Não se pode conhecer totalmente uma pessoa, mesmo passando toda uma vida ao seu lado, então, como achar que um simples vislumbre sobre o que ela escolhe mostrar na internet te fará conhecê-la? Somos mais do que os olhos podem ver, para o bem ou para o mal e nenhuma rede social pode nos representar na totalidade.

     Tendo dito isso, gostaria de alertá-los sobre os riscos da superexposição. Riscos psicológicos, espirituais e muitas vezes riscos materiais. A cerca de 6 anos eu notei que eu tinha um problema: a primeira e a última coisa que eu fazia no dia era postar no facebook. Algo que agora as "lembranças" fazem questão de me mostrar e que me trazem tristeza (mas não tanta quanto meus erros gramaticais na época).

     Eu postava "Bom dia!"com longas mensagens, "Boas noite!" com reflexões profundas, descrevia minhas refeições (não era comum postar fotos nessa época), eu usava trechos das músicas que escutava para descrever o que estava sentindo ao longo do dia, eu ficava com os olhos vidrados na tela por horas, mesmo que não houvesse nada novo na minha timeline, eu me sentia frustrado quando me esforçava para pensar em uma postagem criativa e ninguém curtia, eu sentia o celular vibrar no meu bolso e via a luz se acender, mesmo sem nada disso acontecer, e foi então que eu notei que estava envolvido demais.

     Tive que me esforçar para lembrar que aquele aplicativo de celular era destinado ao uso nas horas vagas, esporádico, que ele não era um diário e que se eu passasse alguns dias sem postar, provavelmente ninguém notaria e isso não diminuiria meu valor como pessoa nem o carinho que meus amigos e familiares têm por mim. Notei que postar meus horários de ida, volta do trabalho, e meu dia de pagamento poderiam me tornar um alvo de sequestro. E que o tempo que eu gastava vendo memes repetidos poderiam ser revertidos para horas de leitura da palavra de Deus.

     Após essa metanóia, foi muito natural para mim levar essa forma de pensar para o meu namoro. Postar no mural do outro é lindo, mostra que você pensou nele e alegra as pessoas que torcem pela felicidade de vocês, mas isso até um certo ponto e com o respeito e prudência devidos. As brigas de vocês devem ficar entre vocês, as conquistas de vocês devem ficar entre vocês e por favor, deixem entre vocês seus apelidos e fotos íntimas. Passem mais tempo conversando e menos tempo se marcando, para que após o casamento, vocês não precisem se dar conta que caráter não tem photoshop.

     A internet foi uma ferramenta - originalmente - desenvolvida para uso militar, como o microondas ou o para-quedas, ela não é ruim, ela é o que se faz com ela. Seu principal objetivo é compartilhar informações, com rapidez e precisão, nos ajudar a saber o que acontece ao redor do mundo, mas isso não precisa incluir o interior da sua casa, e essa é apenas a Minha Humilde Opinião.

Ass: Bruno Santos

terça-feira, 18 de abril de 2017

Geração Comunicação

  Choques de geração não são uma novidade. Sempre tem algo mudando, dificultando o convívio e criando um tipo de abismo entre pais e filhos.

   Uma reclamação frequente por parte dos filhos gira em torno da dificuldade de dialogar com seus pais. Isso, provavelmente, se dá ao fato destes terem sido educados em um regime no qual não tinham direito a fala. Não podiam argumentar contra os castigos impostos, não podiam dar opiniões nas conversas dos adultos e nem se posicionar sobre assuntos mais complexos.

    Esses pais viveram em um tempo sem computadores ou celulares, o que os obrigava a se comunicar verbalmente com todos ao seu redor, mas falar sobre problemas acaba se apresentando um tabu.

   Discutir o relacionamento de forma aberta também é uma prática muito atual. Antigamente se casava (as vezes com um desconhecido) tendo em mente que era para sempre e as pessoas iam se suportando enquanto desse. Diálogos mais densos, com a exposição dos defeitos alheios, frequentemente levavam ao divórcio, mesmo que temporário.

    Hoje temos uma geração que aprendeu a falar sobre seus sentimentos, sobre coisas e situações que não eram debatidas, mas sempre existiram. Uma geração que tem espaço, voz e vez. Que reconhece seus direitos e luta por eles.

    Isso pode até fazer a nossa geração parecer fraca aos olhos dos mais velhos, por reclamar daquilo que eles passaram calados. Mas, por quê alguém precisa estar errado para que o outro esteja certo? Somos seres humanos, todo o contexto histórico influencia na forma como nos comportamos e isso deve ser levado em conta.

    Antes, ser chamado de gordo ou rolha de poço era apenas uma zuação entre amigos. Hoje, é bullyng. Antes, ser chamado de tizil ou macaco era apelido, hoje é racismo, sim! Antes, a inferiorização da mulher e até mesmo as diversas formas de violência contra a mesma era algo a ser resolvido dentro de casa. Quem nunca ouviu a máxima: "Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher"? Hoje, o movimento feminista vem ganhando força e as leis de proteção à mulher sendo cumpridas.

   Muitas das vezes seus pais não conversam com você não porque não querem, mas porque não sabem como fazer isso e até mesmo nem entendem o que você está falando. Não posso exigir que minha mãe tenha um posicionamento sobre apropriação cultural ou racismo reverso, nem que ela converse abertamente comigo sobre sexo se os pais dela não fizeram isso com ela.

     Tenhamos paciência com nossos pais, avós e tios. Com qualquer pessoa mais velha que sabemos fazer parte de uma geração bem diferente da nossa. Como diria Renato Russo, eles "são crianças como você ", também estão aprendendo e aprenderão até o último dia de suas vidas, se você estiver por perto para ensinar, mas essa é apenas a Minha Humilde Opinião.

Ass: Bruno Santos

Colaboração de: Caroline Macedo

domingo, 4 de dezembro de 2016

Sentença de Morte.


     Nesta semana, quem achava que 2016 já estava sendo um ano sombrio, foi surpreendido mais uma vez! Tivemos um acidente aéreo terrível que levou várias pessoas queridas. Tivemos repressões, perseguições e até assassinato de manifestantes que foram até Brasília protestar contra a aprovação da "PECalipse"(PEC241 ou 55/2016), MESMO QUE A MÍDIA NÃO MOSTRE ISSO, FAZENDO PARECER QUE TUDO QUE HOUVE FOI UM PUNHADO DE BADERNEIROS DESTRUINDO PATRIMÔNIO PÚBLICO. Tivemos a aprovação da PL4850/2016, um pacote de medidas que limita o poder do Ministério Público e dos Juízes, ou seja, ajuda quem está devendo ao povo a não ser punido. E para manter o cheiro de sangue no ar, o STF abriu um precedente que descriminaliza o aborto até o terceiro mês de gestação. Neste texto, manterei o foco sobre este último fato, mesmo achando que ele esteja sendo usado para desviar a atenção daquilo que REALMENTE aconteceu em Brasília.

     Todos os anos, milhares de brasileiras morrem em clínicas clandestinas de aborto, mais um dado que a mídia não divulga, seja por desinteresse ou por motivos políticos, o fato é que isso acontece e é uma questão de saúde pública. Acredito que já tenha ficado bem claro que eu sou contra o aborto, e sim, eu tenho um embasamento religioso para isso, mas aqui eu não vou falar sobre pecado, eu vou falar sobre direitos.
Direitos da criança, direito à vida. Sobre os direitos que "nós" temos sobre vidas que não são nossas. Sobre dor e arrependimento.

     Ser religioso, certamente, já me desqualificaria para falar sobre esse assunto - segundo algumas pessoas - e ser homem é um atenuante, mas já tendo sido eu um feto de três meses de gestação, como tantos estão compartilhando nas redes sociais, me sinto respaldado para tal. Não quero falar sobre métodos contraceptivos - já que todos são passíveis de erro - com excessão da castidade, não quero julgar ou afrontar quem discorda de mim, tudo o que eu quero é que o feto seja compreendido como uma vida e que essa vida seja preservada. Assim como  são os ovos de tartarugas, enterrados em praias que se tornam protegidas por leis.

     Lendo os argumentos de algumas pessoas, encontrei quem dissesse que várias dessas crianças nasceriam apenas para aumentar as estatísticas da pobreza no país e que já que não teriam as condições mínimas para sobreviver, o aborto seria muito mais coerente. Fico triste por entender nesse pensamento a ideia de que a vida não vale a pena sem "posses". Que se você não tem como se sustentar, sua vida é um desperdício. Isso me deixa triste porque, através desse pensamento, aquele homem que perdeu o emprego e pulou de um prédio, após matar os dois filhos, fica justificado. Isso faz parecer que ele estava certo e me dá arrepios.

     Sabe o que mais me dá arrepios? Saber que existe uma indústria ansiosa pela aprovação dessa lei e não é a de clínicas de abortos legais. Essa indústria deseja arrecadar fetos e vendê-los no mercado negro, ou você ainda não entendeu que eles estão cheios de células-tronco? Sim, vão vender fetos da mesma forma como vendem órgãos, chegando ao ponto de deixarem de tratar um paciente para acelerar os lucros.

     A frase mais emblemática do movimento pró-aborto é " Meu corpo. Minhas regras". Acho essa frase válida em outros contextos, mas certamente não neste. Um feto já não é mais o corpo da mulher, ele é um outro corpo, em formação dentro do corpo dela. Aceitar que ele seja retirado cirurgicamente - antes de se desenvolver - equipara essa criança a um tumor ou cisto.

     Há alguns anos, visitei a *Fundação Pestalozzi* e conheci algumas mães de crianças com dificuldades psicomotoras, paralisias e tantas outras deficiências. Mães que em sua maioria sabiam que essas crianças nasceriam assim desde o pré-natal. Mães que foram abandonadas por seus companheiros que não queriam assumir a responsabilidade. Porém, mães que nunca, nem por um instante, se arrependeram de sua decisão.

     Mães que se apaixonaram por suas crianças, no primeiro momento em que as viram, mesmo que tenha sido através do vidro de uma incubadora. Mães que agora vibram a cada novo avanço que percebem. Mães que não fariam nada diferente, mesmo que agora vivam uma dedicação total aos seus filhos, muitas vezes não tendo tempo nem sequer para pentear os próprios cabelos.

     Quero falar também sobre as mães de anjos, mulheres que se prepararam para receber uma vida, que por algum motivo não chegou. Assim como aquelas que propositalmente interromperam uma gestação e hoje convivem com o eterno fantasma do "Como teria sido...". Como seria o rostinho dele, como seria sentir seu cheiro ou ouvir o som de seu choro? Essas mulheres são mães e elas sabem disso.

     Muitas mulheres pobres morrem nas clínicas clandestinas de aborto e sim, isso é horrível, mas o resultado de um aborto SEMPRE é uma morte e isso também. O que foi aprovado pelo colegiado do STF foi uma jurisprudência, não significa que o aborto esteja legalizado, quer dizer apenas que será mais difícil prender alguém por isso. Ainda assim, esse é um passo, e nós precisamos discutir esse assunto, esclarecer quais são as alternativas e tentar mostrar que a criança não pode ser sentenciada a morte sem ter cometido nenhum crime. Mas, essa é apenas a Minha Humilde Opinião.

Ass: Bruno Santos

Fontes:

VICENTE, Izabella. ABORTO. Disponível em https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1201240853287820&id=100002057514384, acessado em 01/12/2016.

CYMBALUK, Fernando. Decisão do STF Legaliza o Aborto Até o Terceiro Mês de Gravidez? Disponível em http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2016/11/30/decisao-do-stf-legaliza-o-aborto-ate-o-terceiro-mes-da-gravidez-entenda.htm. Acessado em 01/12/2016

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Prioridades

     Há alguns anos, eu participei de um treinamento de primeiros socorros. Naquela ocasião, eu me empolguei bastante com o curso, mas infelizmente, hoje em dia não recordo muito do conhecimento que adquiri, salvo algumas informações que certamente nunca vou esquecer. "Procedimentos-padrão", que não são facilmente alterados com o tempo como alguns outros já foram.
     Por exemplo, antigamente era comum examinar pessoas acidentadas sem o uso de nenhum tipo de equipamento de proteção, atualmente isso não é recomendado. Não se deve prestar socorro a ninguém sem, no mínimo, o uso de luvas e máscara. Houve também um tempo em que qualquer estranho poderia receber ou realizar uma respiração boca a boca. Com o tempo, verificou-se o quanto essa prática era perigosa e, por isso, foi abolida. 
     Entretanto, existem procedimentos que permanecem inalterados, como por exemplo, o atendimento prioritário às vítimas inconscientes em um acidente.  Pode parecer uma atitude difícil se a vítima consciente estiver gritando de dor ou com uma fratura exposta, mas esse é o procedimento correto, levando em conta que em situações extremas o corpo humano pode apagar para poupar energia. A vítima inconsciente não pode dizer o que está sentindo, sendo assim, examiná-la antes de examinar quem está berrando todos os seus sintomas pode ser a diferença entre a vida e a morte daquele indivíduo.
     Da mesma forma, é um procedimento-padrão atender primeiro as vítimas em estado grave e depois as que estão em estado menos grave. Nunca pensei que uma questão como essa poderia se tornar tabu algum dia. Me deparo com essa cena cada vez que compareço à emergência do SUS. Graças a Deus nunca fui classificado com estado grave. E acredito que um pai que aparece na emergência com o filho que acaba de cair da lage enquanto soltava pipa, não queira ficar na fila atrás de uma senhora que acordou com dor de cabeça.
     Felizmente, o tabu é entre pessoas comuns e não entre quem realmente pode ter uma vida nas mãos. É entre donas de casa e universitários, apresentadores de TV e youtubers, cantores e atores.. Eu ficaria preocupado se ouvisse um cirurgião dizendo que se nega a atender alguém por sua classe social ou "profissão". Não que, diariamente, pessoas de bem já não morram nas filas esperando atendimento, mas saber que isso foi intencional por parte do médico seria assustador. Que ele estava lá, mas ESCOLHEU não atender o paciente. Afinal, essas pessoas fizeram juramentos, cinco anos de faculdade, promessas sobre salvar vidas para no final das contas deixar alguém morrer de propósito?
     Que possamos ter em mente que a vida é o mais importante, que sua preservação deve ser a principal preocupação e que deixemos os julgamentos e punições nas mão de quem se preparou por anos para essa função: o Batman. Mas, essa é apenas a Minha Humilde Opinião. Que sejamos livres de todo preconceito, toda a bala perdida e que Deus nos proteja.

Ass: Bruno Santos

#SaudadesTVGlobinho"

A Benção Madrinha

     Na última quinta-feira, enquanto andava pela rua, avistei uma senhora, com o rosto conhecido da Igreja, que vinha conversando com outra mulher. A cumprimentei e segui meu caminho, entretanto não pude deixar de ouvir quando a acompanhante da mesma, continuando a conversa, fez o seguinte comentário:
    - A Igreja Católica está cheia de palhaçada pra batizar agora! - ao que a senhora de rosto conhecido respondeu: - É verdade.
     Sinceramente, essa situação me incomodou bastante. Por ela estar falando mal da igreja? Não! Por ter chegado a conclusão que mais uma criança seria batizada por pais que não compreendem a importância desse sacramento ou dos padrinhos.
Essa figura tem sido distorcida por nossa cultura materialista e se tornado uma simples máquina de dar presentes e mimos, quando deveria ter um sentido bem mais profundo.
     Nos contos infantis, as "fadas madrinhas" aparecem para seus afilhados em momentos de apuros e lhes oferecem suções mágicas, mesmo que os afilhados ne sequer soubessem de sua existência até poucos minutos. Tenho em São Paulo a figura do primeiro padrinho dentro da igreja católica e vejo o cuidado dele com as comunidades por onde passou o equivalente ao que espero dis padrinhos de meus filhos.
     A principal função dos padrinhos é auxiliar os pais na formação cristã dos afilhados ou até substituí-los nessa função em caso de ausência e/ ou omissão dos mesmos. Sendo assim, antes de ter uma boa relação com os pais ou uma boa condição financeira, o padrinho escolhido deve ter uma relação de intimidade com Deus. Ser um exemplo de vida. Como exemplo, digo que o padrinho deve  seguir aquilo que a Igreja indica a seus fiéis e estar em dia com seus sacramentos.
     Isso inclui ser crismado, viver a castidade (sendo solteiro ou casado, mas principalmente sendo casado) e não viver uma situação que o impeça de comungar.
Uma outra característica importante dos padrinhos é a participação ativa na vida do batizando, afinal, lembrar dos afilhados apenas no natal e no aniversário fere seu verdadeiro objetivo. Um padrinho presente é um ombro amigo, que conhece o afilhado tanto quanto os próprios pais, mas pode dar uma visão externa dos acontecimentos.
     Um padrinho que vive longe dos afilhados nada mais é que um "parente" distante, uma lembrança vaga. Os padrinhos devem ser aqueles que levam as crianças na missa quando os pais não podem, que inscrevem as crianças na catequese quando os pais nem sequer sabem que as inscrições estão abertas, que perguntam: "Você já rezou o terço hoje?" quando a criança chega na sua casa e está pronto para dizer: "Então vamos rezar juntos!" ao receber uma resposta negativa.
     Entendo que alguns pais tenham a intenção de eleger amigos como padrinhos de seus filhos, promovendo-os dessa forma à cumpadre ou cumadre, estreitando os vínculos de amizade, mas os parâmetros para ser amigo e padrinho são diferentes. Você pode fazer um amigo na fila do cinema, no banco de um ônibus, na internet, em uma mesa de bar e até em um show. Já um padrinho deve ser escolhido dentro da Igreja.
     Você pode ter amigos dos mais variados tipos, pode colocar todos dentro da sua casa para conviverem com o seu filho e ensiná-lo a respeitar todos, mas o padrinho dele tem que se encaixar naquilo que a Igreja pede, para que no dia em que a sua postura ou suas companhias estiverem prejudicando a criança exista uma referência para apontar onde está o erro. Mas essa, é apenas a Minha Humilde Opinião.

As: Bruno Santos

sábado, 8 de outubro de 2016

Tia de Quem?

     Os pronomes de tratamento são expressões de reverência, títulos honoríficos, nomes que constituem formas corteses de se referir a alguém. Tais aspectos estão condicionados ao grau de intimidade que estabelecemos com as pessoas e, dependendo da posição hierárquica que ocupam, necessitam da devida adequação.
     Empregamos os termos senhor e senhora, por exemplo, a pessoas de mais idade, experiência, conhecimento ou que simplesmente ocupam um papel hierarquicamente superior ao nosso. Chamamos de doutores (as vezes de forma equivocada, pois naturalizada) médicos e advogados, ressaltando que aquela pessoa tem um alto grau de conhecimento sobre a sua área de atuação. Seguindo esta lógica, eu pergunto: a que tipo de pessoas empregamos o pronome Tia(o)?
    Não entendeu a pergunta? Compreensível. Afinal, tia e tio são relações familiares, mas isso não nos impede de usar esse "pronome" com a "tia" da limpeza, com o "tio" da xerox, com a "tia" da cantina, mesmo que eles não façam parte da nossa família. Já parou para pensar que esse termo possui um caráter minimizador?
     Pessoas que recebem este título de membros honorários da família costumam ocupar cargos socialmente desvalorizados, vistos como subalternos. São pessoas com baixo grau de instrução que passaram a vida lutando pelo pão de cada dia e em grande parte das vezes não tiveram oportunidades de crescimento profissional. A familiarização tem o objetivo de diminuir a carga negativa de chamar uma senhora de 56 anos pelo nome de seu cargo, seja o de copeira, auxiliar de serviços gerais ou merendeira, por exemplo. Esse "constrangimento" pode ser comparado ao que leva alguém a chamar uma negra de moreninha, como se ser negra fosse algo que precisa ser minimizado.
       Ter um trabalho digno é honroso, não é motivo para vergonha ou constrangimento de ninguém, nem de quem chama e nem de quem é chamado. Se chamar profissionais por esse título não tivesse uma intencionalidade e fosse algo, de fato, normal você usaria ele com os "doutores" médicos e advogados, com os líderes religiosos e quem sabe com o seu próprio chefe. Seria adequado? Os Tios e Tias que encontramos diariamente possuem identidade própria, possuem um nome e o mais adequado seria tratá-los através deste. Um "seu" ou "dona" de vez enquanto não faz mal também.
    Para aqueles que ao longo desse texto se lembraram de todas as professoras que tiveram ao longo da infância e que chamaram ou ainda chamam de tia eu gostaria de dizer que esse termo foi atribuído a elas de forma mal intencionada em uma sociedade machista que via a docência como uma extensão do trabalho - antigamente visto como natural - da mulher que era educar os seus próprios filhos e para isso transformou a profissional da educação em uma outra mãe para os filhos de todos: Uma tia.
     Segundo Paulo Freire, essa forma de tratamento também tem o objetivo de minimizar o caráter político intrínseco a ao magistério. Até porque, professoras fazem greves. As boas tias, não. Professoras lutam por seus direitos, subvertem o sistema. As boas tias, não.
     Finalizando, lembro que os funcionários que chamamos de tios em sua maioria não se incomodam, já naturalizaram esse tratamento e talvez se sintam até acolhidos de verdade. O objetivo desse texto não é extirpar esse familiar do seu cotidiano,  é tão somente te levar a uma reflexão sobre um hábito tão enraizado que deixa de ser questionado, mas como tudo nesse blog, essa é apenas a Minha Humilde Opinião.

Ass: Bruno Santos

Fontes:

SANTOS, Humberto C. Professora não é tia: Professora é educadora. In Revista Estação Científica - Juiz de Fora - N° 13, Janeiro a Junho/2015

Pronomes de Tratamento.
 <http://m.portugues.uol.com.br/gramatica/pronomes-tratamento.html> Acesso em: 08/10/2016

FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não. Cartas a quem ousa ensinar. SP. Editora Olho D'água, 1997.

Para acompanhar nosso trabalho curta nossa página no facebook.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Marca Líder.


     No ramo da publicidade existe um conceito conhecido como Marca Líder. Chamam assim marcas que se tornam referência em um seguimento a ponto de terem seus nomes confundidos com o dos próprios produtos.

     É o caso do Nescau, que é como chamamos qualquer achocolatado em pó, seja ele da marca Toddy ou Chocopinho, do Bombril, que passou a ser um sinônimo de esponja de aço, da Gillette, que parece servir para qualquer lâmina de barbear e não esqueça do Cotonete que oficialmente se chama "haste pequena envolta em algodão". Na gramática essas substituições recebem o nome de metonímia.

     Há alguns séculos atrás, uma pessoa ou grupo de pessoas criou uma "marca líder" com indiscutível sucesso. O problema é que essa "marca" não se referia a um produto ou a um fabricante, se referia ao conceito de beleza. Pode ser que isso tenha acontecido apenas comigo, mas durante muitos anos da minha vida, ao ouvir a expressão MULHER BONITA a associação feita automaticamente era a imagem de uma mulher branca, com longos cabelos loiros e lisos, alta e magra, mas ainda com curvas.
   
     Eu não estou dizendo que nunca tinha visto uma mulher negra que considerasse bonita, o que quis dizer é que, sempre que uma mulher bonita era representada, fosse em um filme, livro, desenho animado, novela ou concurso de beleza, ela nunca era negra. Aliás, mesmo nos concursos internacionais de beleza, parecia que os negros só existiam no continente africano.

     Uma parte importante no processo de tornar uma marca " A Melhor" é fazer as outras parecerem piores do que realmente são e essa, sem dúvida foi a etapa mais bem sucedida do processo. Fizeram o cabelo crespo se tornar "cabelo ruim", a pele com maior taxa de melanina se tornou um sinônimo de sujeira, no sentido literal e moral, e o nariz achatado virou "nariz de batata". Até as curvas das negras passaram a ser vistas com volúpia pecaminosa.
   
     As vezes, subindo meu feed de notícias vejo postagens de pessoas que dizem ter vencido o preconceito porque tinham sobrepeso na infância e conseguiram emagrecer, porque eram muito magras e ganharam corpo com malhação ou porque se achavam feios e agora podem exibir o resultado de seus anos usando aparelhos ortodônticos, fazendo tratamentos de pele e novos penteados. Tenho que dizer a essas pessoas: Vocês não venceram o preconceito!

     Vocês aceitaram o preconceito, compraram o produto dele, tomaram o que ele disse como verdade e se adaptaram as suas vontades. Deixar de ser gordo não te faz vencer a gordofobia, só te faz deixar de ser uma vítima imediata dela. Acontece que um negro não pode deixar de ser negro, não importa quanto racismo ele sofra. Ter sua imagem depreciada mexerá com sua auto estima e ele tentará se enquadrar ao padrão de beleza socialmente estabelecido, alisando seus cabelos, mudando sua forma de falar, seu jeito de se vestir, suas companhias e na pior das hipóteses recorrendo a cirurgias plásticas. Mas, ele sempre será negro!

     Sendo assim, se ao contrário de outros oprimidos, os negros não possuem a opção de mudar determinadas características físicas, qual a solução para vencer o preconceito? Empoderar-se! Tomar conhecimento da própria beleza, da própria força e se libertar dos padrões pré-estabelecidos. Compreender que seu cabelo não bate na mãe, rouba ou mata, sendo assim não pode ser chamado de ruim. Que a cor da sua pele é linda e que seu nariz é perfeito do jeito que é.

     A partir do momento em que os negros deixam de querer ser brancos eles começam a consumir produtos diferentes, produtos que os representem.  Começam a ir a lugares, falar com pessoas e divulgam essas coisas. Isso cria um mercado, e consequentemente faz com que as grandes empresas lembrem que esse público existe e tem dinheiro para gastar. Dinheiro esse que eles querem muito receber. Porque o dinheiro não sofre racismo, ele é aceito independente de sua origem. É nesse momento que a verdadeira luta começa.

     Obviamente o movimento de auto-aceitação negra vem de gerações, com muita luta e algumas poucas conquistas, mas nos anos de 2015/2016 vimos algo inesperado. Nesse meio tempo Beyoncé fez os americanos lembrarem que ela é negra, Viola Davis ganhou um prêmio metendo o dedo na ferida em seu discurso sobre negros não poderem ganhar prêmios por papéis que não existem e a ausência de um negro na premiação do Oscar não passou desapercebida.

     Fatos relacionados, mas menos relevantes foram a escolha de um ator negro para interpretar o personagem L na adaptação norte-americana do anime Death Note, a peça teatral baseada no livro Harry Potter que contou com uma Hermione negra e a Marvel ter anunciado que uma jovem negra assumirá a armadura do Homem de Ferro em seus quadrinhos. Quis citar esses fatos aqui devido a repercussão nas redes sociais. Pessoas alegaram que os personagens haviam sido DESTRUÍDOS pelo simples fato da cor de sua pele ter sido alterada, mesmo levando em conta que essas mudanças não trariam nenhuma mudança significativa ao roteiro.

      O que concluir disso então? Nós incomodamos! Existem milhares de negros no mundo, mas quando este mundo é representado nós somos omitidos. Escondidos, como se devessem ter vergonha de nós. Sabe quando são chamadas pessoas negras para fazer a figuração da cena de um filme? Quando querem representar uma cena que se passa em um bairro pobre. Você pode me acusar de ser paranóico, eu também já me acusei disso, mas então usei meu olhar crítico. Tente fazer o mesmo:

     Olhe para a sua cidade, lembre das últimas cinco eleições, caso você tenha idade para isso, e me diga: quantos prefeitos negros vocês já tiveram? Algum? Ótimo! Não teve? Então quantos candidatos negros já tiveram? Lembrou de algum? Agora me diga, você acha que ter um negro em evidência, fazendo um bom trabalho é interessante para alguém além dos próprios negros? Talvez sim, mas por que abrir precedente?

   Os EUA, um país chamado de Primeiro Mundo, que se tornou independente bem antes de nós e que possui uma população negra tão grande quanto a nossa só teve Barack Obama em 2009. Quanto tempo levará para que um negro assuma a presidência em um país onde afrodescendentes parecem precisar de cotas até para aparecer em comerciais de TV? Um negro para cada cinco brancos, essa é a fórmula.

     Matematicamente falando, o fato de ter um apresentador de telejornal negro no meio de 15 brancos não é realmente relevante - na verdade é preocupante, visto que representamos 53% da população do país -  mas perceber que algo está mudando causa o sentimento de estranheza em quem sempre teve todos os papéis a sua disposição. Por isso a Maria Júlia Coutinho é atacada nas redes sociais. Por isso a imagem de uma jovem de jaleco com o texto "a casa grande pira quando a senzala vira médica" gera textos gigantescos de brancos jurando que "somos todos iguais".

     Hoje os negros possuem maior visibilidade,  somos grande parte dos membros de equipes esportivas, deixamos nossa marca na música, estamos mais frequentes nas universidades e em cargos públicos. Entretanto, ainda somos ínfimos nos cargos de liderança das empresas, desaparecemos nas estatísticas de professores universitários e entre os médicos e infelizmente depois de tanto tempo continuamos sendo a maioria na população das periferias, nos subempregos e nas penitenciárias.

     Ser visto, ser lembrado, ser notório, essa é a marca do negro, esse é o seu talento e é com essa marca que venceremos todos os preconceitos e imposições sociais. Assim mostraremos que também somos belos, capazes e virtuosos porque os privilégios deles podem ser históricos, mas a nossa luta também é.

Esta é a Minha Humilde Opinião.

Ass: Bruno Santos"

Fontes:

Discurso de Viola Davis.

Sim, Beyoncé é negra.

Para conhecer mais sobre o nosso trabalho, sugerir temas ou apenas entrar em contato, visite a nossa página no Facebook.